Confissão e contradições: como foram as 16 horas do júri que condenou madrasta por envenenamento dos enteados
Tribunal do Júri condena Cintia Mariano a 49 anos de prisão por envenenar enteados O julgamento que condenou Cíntia Mariano Dias Cabral a 49 anos e meio de p...
Tribunal do Júri condena Cintia Mariano a 49 anos de prisão por envenenar enteados O julgamento que condenou Cíntia Mariano Dias Cabral a 49 anos e meio de prisão atravessou a madrugada entre a quarta (4) e quinta-feira (5) no 3º Tribunal do Júri do Rio e foi marcado por relatos emocionados, acusações diretas dos próprios filhos da ré e momentos de tensão entre a acusada e a juíza responsável pela sessão. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Após quase 16 horas de julgamento, os jurados decidiram pela condenação da madrasta pela morte de Fernanda Cabral, de 22 anos, e pela tentativa de homicídio contra o irmão da jovem, Bruno Cabral, que tinha 16 anos à época. Os advogados de defesa de Cintia disseram que vão recorrer da decisão. Nesta reportagem, o g1 reúne os momentos mais marcantes dos depoimentos que ajudaram a esclarecer o crime e marcaram o julgamento que terminou com a condenação da madrasta de Fernanda e Bruno. Cíntia Mariano Dias Cabral no banco dos réus do 3º Tribunal do Júri Bruno Dantas/TJRJ Segundo o Ministério Público, Cíntia colocou “chumbinho”, veneno usado para matar ratos, na comida servida aos dois enteados em ocasiões diferentes em 2022. Fernanda passou mal após uma refeição na casa da madrasta, ficou 13 dias internada e morreu. Dois meses depois, Bruno apresentou sintomas semelhantes após comer feijão no mesmo local, mas sobreviveu. Sobrevivente O primeiro depoimento da sessão foi justamente o de Bruno Cabral, sobrevivente do envenenamento e irmão de Fernanda. Ao relembrar o almoço na casa da madrasta, o jovem disse que estranhou a forma como a comida foi servida. Segundo ele, naquele dia todos estavam se servindo normalmente quando Cíntia entregou diretamente a ele um prato já com feijão. "Na hora de todo mundo se servir, ela já me deu o prato com feijão. Só o meu. O prato só com feijão. Achei estranho, mas tudo bem. Me servi e comecei a comer. Percebi que o gosto estava estranho e reparei muitos pontinhos azuis no feijão", disse. Bruno Carvalho Cabral durante o depoimento no julgamento de Cintia Mariano Reprodução redes sociais TJRJ Bruno contou que começou a separar as partículas no prato e questionou a madrasta sobre o que havia na comida. Segundo ele, a reação dela foi incomum. "Eu comecei a separar, mas achei estranho e fui questionar ela sobre isso. Mas foi muito estranho porque logo depois ela apagou a luz e ficou muito estranha, nervosa com aquilo", contou. Depois do almoço, o jovem decidiu ir para a casa da mãe para contar o que havia acontecido. Ele disse que inicialmente não imaginava que tivesse sido envenenado. "Minha mãe disse que 10 minutos depois de deitar eu acordei com a língua toda enrolada e gritando por ela", recordou. Bruno relatou ainda que acordou com sintomas graves e precisou de ajuda para descer as escadas da casa. "Eu lembro que acordei muito suado e com uma dificuldade para andar. Para descer as escadas da casa eu precisei da ajuda da minha mãe porque eu não consegui descer sozinho". Cíntia Mariano e Bruno Cabral (montagem) Reprodução Segundo ele, ao chegar ao hospital, já associava o episódio ao que havia acontecido com a irmã. "Quando eu acordei nesse dia envenenado eu já soube que com ela tinha acontecido a mesma coisa", reforçou Bruno. Família e conflitos Antes de os jurados ouvirem os relatos sobre a confissão e a versão da própria ré, uma série de depoimentos buscou reconstruir como era a convivência dentro da casa onde os crimes aconteceram. Pais, filhos e pessoas próximas à família descreveram uma relação marcada por tensões, principalmente entre Cíntia e os enteados. Segundo os depoimentos, os conflitos eram frequentes e, muitas vezes, surgiam por motivos cotidianos, desde questões domésticas até a relação dos jovens com o pai. O pai das vítimas, Adeílson Cabral, contou que manteve um relacionamento com Cíntia por cerca de cinco anos. Ele afirmou que havia discussões dentro de casa, especialmente entre a madrasta e a filha mais velha. "Era coisa de trabalho, que gastou um pouco mais, que colocou alguma coisa fora do lugar (...) a Cintia brigava muito mais", disse ele. Adeílson Cabral, pai de Bruno e Fernanda, e companheiro da Cintia na época do crime, presta depoimento. Reprodução redes sociais TJRJ Adeílson relatou que costumava atender a pedidos da filha, o que acabava gerando incômodo na companheira. "Eu favorecia sim a minha filha, questão de horário, de dinheiro, e isso incomodava a Cintia." Segundo ele, a relação entre a madrasta e Bruno também era difícil. O jovem chegou a morar por um período com o pai, mas decidiu sair da casa por causa dos conflitos. No depoimento ao júri, Bruno afirmou que os desentendimentos com a madrasta começaram ainda antes do episódio do envenenamento. Ele relatou situações que, segundo ele, alimentavam desconfiança dentro de casa. Entre os episódios citados estavam discussões envolvendo dinheiro e até o desaparecimento de objetos pessoais. O jovem contou que chegou a desconfiar que mensagens enviadas por ele ao pai eram apagadas antes de serem lidas. Em outro momento, relatou o sumiço da carteira escolar, que acabou sendo encontrada dentro da casa. Segundo ele, esses episódios aumentaram o clima de tensão entre os dois. A mãe dos jovens, Jane Cabral, também descreveu no julgamento uma relação distante com Cíntia e afirmou que praticamente não mantinha contato com a madrasta dos filhos. "Essa mulher pra mim era indiferente. Ela era apenas a mulher do meu ex." Jane Cabral, mãe dos jovens Fernanda e Bruno, durante o julgamento de Cintia Mariana (de branco). Reprodução TJRJ Jane afirmou que só teve contato mais frequente com Cíntia durante o período em que Fernanda esteve internada no hospital. Ela contou que, naquela época, a madrasta insistia repetidamente em oferecer comida para ela. "Durante toda a internação da Fernanda ela me oferecia comida, em quentinha", relembrou. Segundo Jane, um episódio específico passou a chamar atenção depois da morte da filha. Ela disse que recebeu um bolo enviado por Cíntia dias após o enterro da jovem. "E depois, em outro dia, ela mandou um bolo de chocolate pra minha casa. Estava eu e o Bruno e assim que recebemos o bolo ele foi direto pro lixo", disse Jane. Durante o depoimento, a mãe das vítimas também falou sobre o estilo de vida da filha mais velha. Fernanda, segundo ela, mantinha rotina intensa de exercícios e alimentação controlada. "Era apenas comida saudável. Frango, batata, batata doce. Só comida saudável." A jovem treinava regularmente e, de acordo com a mãe, havia inclusive reduzido o consumo de bebidas alcoólicas para se dedicar aos treinos. ‘Fez com vontade de matar’, diz mãe de jovens sobre madrasta suspeita de envenenamento A própria Cíntia chegou a levantar, na época da internação, a hipótese de que os sintomas poderiam estar ligados ao uso de anabolizantes, uma possibilidade que, segundo Jane, nunca fez sentido para a família. A desconfiança de que algo mais grave poderia ter acontecido só surgiu meses depois, quando Bruno apresentou sintomas semelhantes após o almoço na casa do pai. Confissão Se o depoimento de Bruno ajudou a reconstruir a dinâmica do crime, o momento mais impactante do julgamento veio quando os próprios filhos de Cíntia foram chamados a depor. Lucas Mariano Rodrigues e Carla Mariano Rodrigues falaram como testemunhas de acusação e relataram ter ouvido da própria mãe a confissão de que ela havia envenenado os dois enteados. Os depoimentos foram prestados de forma separada, mas os relatos se complementaram em pontos centrais e chamaram a atenção dos jurados. Lucas Mariano Rodrigues, filho da ré (camisa branca), confirmou que a mãe confessou o crime contra os dois enteados. Reprodução redes sociais TJRJ Lucas contou que passou a desconfiar da mãe no dia em que Bruno passou mal após o almoço na casa da família. Segundo ele, alguns comportamentos da ré naquele momento despertaram suspeitas, entre eles o nervosismo dela e a forma como tentou impedir que ele usasse o celular. No hospital, ele disse que começou a ligar os fatos e conversar com a irmã, Carla, sobre o que havia acontecido meses antes com Fernanda. Mas a confirmação, segundo ele, veio apenas depois. Lucas relatou que buscou a mãe no hospital após uma tentativa de suicídio e a levou para a casa da avó. Lá, decidiu confrontá-la diretamente. Ele contou que iniciou uma conversa tentando entender o que havia acontecido com Bruno. "Eu perguntei se ela tinha feito e ela assumiu que tinha feito com o Bruno." Segundo Lucas, a mãe começou a chorar durante a conversa. Ele então perguntou sobre a morte de Fernanda, ocorrida dois meses antes. "Eu perguntei da Fernanda. E ela falou que tinha feito com a Fernanda também." Carla Mariano Rodrigues, filha de Cíntia Mariano, também afirmou em depoimento no júri que a mãe confessou ter cometido os crimes. Reprodução redes sociais TJRJ O filho da ré afirmou ainda que tentou entender o motivo dos crimes, mas disse que não recebeu uma explicação clara. O apelido citado, segundo ele, era uma referência a Adeílson Cabral, pai das vítimas e companheiro de Cíntia na época. "Eu perguntava o motivo e ela só falava: 'Maninho, Maninho, Maninho'." Lucas disse que, após ouvir a confissão, decidiu avisar a irmã. Ele contou que pediu que a mãe repetisse tudo o que havia dito para ele. "Entrei em contato novamente com a minha irmã e pedi para ela falar o mesmo para minha irmã. E tudo que ela falou pra mim ela repetiu para a minha irmã." Pouco depois, Carla Mariano Rodrigues confirmou ao júri que também ouviu a confissão da mãe. Ela contou que estava na casa do pai, em Muriqui, quando recebeu uma ligação do irmão relatando o que havia acontecido. A partir daquele momento, passou a insistir para falar diretamente com a mãe. Segundo Carla, Cíntia chegou a telefonar para ela, mas disse que só explicaria o que havia acontecido pessoalmente. A filha da ré então decidiu voltar para encontrar a mãe. O encontro aconteceu na casa da avó, pouco tempo depois de Cíntia receber alta hospitalar. Carla relatou que, naquele momento, já sabia que o irmão pretendia denunciar o caso à polícia e disse que precisava ouvir da própria mãe o que havia acontecido. "Eu falei pra ela: 'mãe, eu preciso ouvir da sua boca'." Segundo a testemunha, as duas se afastaram das outras pessoas que estavam na casa para conversar. "Ela sentou e falou: 'Eu fiz'." Mensagens nas redes sociais revelam reação de pessoas próximas a Fernanda Cabral após sentença que condenou Cíntia Mariano a 49 anos de prisão Reprodução redes sociais Carla afirmou que a mãe não deu nenhuma explicação sobre o motivo do crime. Ela disse que ficou com medo de que Cíntia tentasse fugir antes da chegada da polícia civil, que havia sido acionada pela família. O relato dos dois filhos foi um dos momentos de maior silêncio no plenário durante o julgamento. Contradições de Cíntia Depois de horas de depoimentos de testemunhas e familiares, a atenção do plenário se voltou para o interrogatório da própria Cíntia Mariano. Sentada diante da juíza Tula Corrêa de Mello, a ré começou o depoimento negando todas as acusações. "Eu jamais faria isso." IML confirma que Fernanda Cabral foi envenenada Durante o interrogatório, Cíntia tentou reconstruir os dias em que os dois episódios aconteceram. Ao falar sobre a morte de Fernanda, afirmou que a jovem havia mantido sua rotina normal e que não havia ingerido nenhuma comida preparada por ela. A ré disse que a enteada havia chegado do trabalho com roupas de academia, consumido apenas alimentos próprios e depois ido treinar antes de voltar para casa e começar a passar mal. Segundo Cíntia, a própria equipe médica no hospital teria levantado a hipótese de uso de anabolizantes pela jovem, versão diferente do que outras testemunhas disseram ao longo do julgamento. Quando passou a falar sobre o episódio envolvendo Bruno, no entanto, o depoimento começou a gerar questionamentos da magistrada. Cíntia afirmou que havia preparado o almoço normalmente e descreveu o tempero utilizado no feijão servido naquele dia. "Eu cozinhei o feijão no dia e temperei com alho, caldo knorr e chimichurri." Tribunal do Júri condena Cintia Mariano a 49 anos de prisão por envenenar enteados. Reprodução redes sociais TJRJ A explicação chamou a atenção porque Bruno havia relatado ter visto "pontinhos azuis" no prato. A juíza então interrompeu o depoimento e fez uma pergunta direta. "Nenhum desses ingredientes é azul?" Cíntia respondeu tentando justificar que o tempero poderia explicar o que o jovem havia visto. "O chimichurri é misturado. Tem uns azuis, uns cinza." Ao longo do interrogatório, a juíza passou a confrontar a ré com declarações que ela mesma havia dado anteriormente na delegacia. Em vários momentos, as versões apresentadas durante o julgamento não coincidiam com os depoimentos prestados durante a investigação. Um dos pontos de tensão ocorreu quando Cíntia explicou o que teria acontecido com o prato de comida de Bruno. Em um primeiro momento, ela afirmou que o próprio adolescente havia jogado o prato no lixo. Instantes depois, ao ser questionada novamente pela juíza, mudou a versão. "Eu me enganei. Fui eu mesmo que joguei na sacolinha." Cíntia Mariano ao ser presa no Rio TV Globo A magistrada voltou a insistir na divergência entre as versões e pediu que a ré esclarecesse qual das duas declarações estava correta. O interrogatório seguiu com novos questionamentos sobre detalhes da refeição e da sequência de acontecimentos daquele dia. No momento em que passou a ser questionada sobre a suposta confissão relatada pelos filhos, Cíntia voltou a negar qualquer envolvimento. "Ele diz que eu confessei, mas como vou confessar uma coisa que nunca fiz?" A ré também tentou desacreditar os relatos de Lucas e Carla, afirmando que estava sob efeito de medicamentos quando conversou com os filhos após deixar o hospital. Apesar da negativa, o depoimento foi marcado por sucessivas intervenções da juíza, que buscava esclarecer contradições entre as versões apresentadas pela acusada e as declarações anteriores registradas no processo. A madrugada do júri e a sentença O julgamento também reuniu dezenas de testemunhas entre médicos, policiais e peritos envolvidos no atendimento às vítimas e na investigação do caso. Entre os relatos técnicos apresentados no processo, laudos apontaram que os sintomas apresentados pelos dois jovens eram compatíveis com intoxicação por carbamato, substância presente no chamado “chumbinho”. O júri também revisitou etapas da investigação que começou em 2022, após a morte de Fernanda e o segundo episódio envolvendo Bruno. Na ocasião, investigadores recolheram alimentos da casa da família para análise e a ré acabou presa preventivamente. LEIA TAMBÉM: Análises feitas pós-exumação confirmam que estudante foi envenenada Laudo comprova envenenamento de enteado por 'chumbinho' Após a longa madrugada de depoimentos, os jurados se reuniram em uma sala secreta e definiram o veredito em menos de meia hora. Cíntia foi condenada por homicídio qualificado pela morte de Fernanda e por tentativa de homicídio contra Bruno. Familiares e amigos avaliam Logo após a condenação, familiares e amigos das vítimas usaram as redes sociais para comentar o resultado do julgamento. Uma das mensagens compartilhadas pela família foi escrita pela amiga de Fernanda que acompanhou a sessão no tribunal. "Depois de 16h de audiência nós conseguimos! Nada vai trazer a nossa Fefa de volta, mas hoje o coração fica um pouco mais aliviado em saber que a Justiça foi feita." Jane Cabral e a filha Fernanda Cabral. Reprodução redes sociais Lucas Mariano Rodrigues, filho da ré, também comentou o desfecho do caso. "Única e última vez que venho falar disso aqui. A justiça foi feita! Pra mim, o caso sempre foi bem esclarecido e sempre dormi de cabeça tranquila. Hoje, a história acabou e meu laço foi rompido definitivamente. A gente colhe o que a gente planta", escreveu Lucas. O namorado de Fernanda na época do crime, Pedro Lopes, afirmou que o resultado trouxe algum alívio para quem convivia com a jovem. "Após 4 anos de espera, a justiça está feita. Nada vai trazer a Fernanda de volta, mas minimamente o coração fica mais tranquilo", disse Pedro. A mãe dele, Lôra Lopes Costa, também escreveu sobre a decisão. "Nada vai trazer mais a vida da nossa Fefa, ela foi ceifada por essa desumana, mas saber que ela foi condenada é fazer justiça" Bruno, Fernanda e Jane. Reprodução/Redes sociais